O desfecho de uma história que chocou o interior paulista e ganhou repercussão nacional aconteceu na tarde desta quinta-feira (5). Fernanda Cristina Policarpo, a jovem de 29 anos que chegou a ser dada como morta após um grave acidente, finalmente cruzou as portas do Hospital de Base de Bauru para retornar ao convívio de sua família.
A saída da paciente foi marcada por um clima de intensa emoção. Funcionários da unidade de saúde, que acompanharam de perto a luta pela vida nos corredores da UTI e da enfermaria, organizaram uma despedida calorosa. O caso, que mistura contornos de tragédia com um “renascimento” inexplicável, encerra um ciclo de quase três semanas de incertezas.
Fernanda deixou a unidade médica em uma ambulância do próprio hospital, mas o semblante era de vitória. Embora ainda apresente algumas dificuldades na fala, reflexo natural da gravidade das lesões sofridas, ela conseguiu expressar o sentimento de gratidão e bem-estar antes de seguir para sua residência.
O que se sabe até agora
A trajetória de superação de Fernanda começou de forma dramática no dia 18 de janeiro. Naquela noite, ela tentava atravessar a Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), em Bauru, quando foi atingida violentamente por um veículo. O impacto foi tão severo que as primeiras equipes de socorro acreditaram que não haveria chances de sobrevivência.
O primeiro atendimento foi realizado por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). No local, a médica responsável pela unidade de resgate avaliou a vítima e emitiu o veredito fatal: Fernanda foi declarada morta ainda na pista. A partir daí, os protocolos de óbito foram iniciados, isolando a área para a perícia.
O que se seguiu foi uma sucessão de eventos que beiram o inacreditável. Enquanto o corpo aguardava a chegada do Instituto Médico Legal (IML) sob uma manta térmica, um segundo olhar mudou o destino da jovem. Um médico socorrista da concessionária que administra a rodovia notou movimentos quase imperceptíveis, percebendo que o coração de Fernanda ainda lutava.
Possíveis causas e contexto
O erro inicial no diagnóstico de óbito levantou discussões profundas sobre os protocolos de emergência em rodovias brasileiras. Especialistas apontam que, em casos de traumas extremos ou estados de choque profundo, os sinais vitais podem se tornar tão tênues que desafiam a percepção imediata, exigindo equipamentos de alta precisão.
No Brasil, o atendimento pré-hospitalar é o pilar que separa a vida da morte em acidentes de trânsito. O caso de Bauru acende um alerta sobre a necessidade de revisões constantes nos métodos de triagem. A pressão do ambiente de rodovia, a baixa luminosidade e a gravidade das lesões podem ter contribuído para a conclusão equivocada da primeira equipe.
Por outro lado, a persistência do médico da concessionária é vista como o fator determinante para o milagre. Ao ignorar a declaração prévia de morte e realizar novos testes, ele encontrou o sopro de vida que permitiu a reanimação imediata e o transporte urgente para o Pronto-Socorro Central.
Reação de autoridades e investigação
O episódio não passou despercebido pelas autoridades de segurança e saúde. Um boletim de ocorrência foi lavrado detalhando a cronologia dos fatos, e investigações internas foram abertas para apurar a conduta da equipe do Samu envolvida no primeiro atendimento. O objetivo é entender como a morte foi atestada prematuramente.
A prefeitura local e os órgãos responsáveis pelo serviço de emergência ainda não divulgaram um relatório conclusivo sobre possíveis sanções ou mudanças estruturais no serviço. No entanto, o caso já serve de base para novos treinamentos em diversas regiões do estado de São Paulo, visando evitar que cidadãos sejam cobertos por mantas térmicas ainda em vida.
Enquanto a esfera administrativa busca respostas, a polícia civil também acompanha o caso para esclarecer as circunstâncias do atropelamento em si. O condutor do veículo envolvido prestou depoimento, e os laudos da perícia técnica de campo devem complementar o inquérito nas próximas semanas.
Impacto para a população e região
Para a comunidade de Bauru e cidades vizinhas, a história de Fernanda Policarpo tornou-se um símbolo de esperança. Durante os 19 dias em que esteve hospitalizada — sendo nove deles sob cuidados intensivos na UTI — correntes de oração e mensagens de apoio inundaram as redes sociais locais.
A recuperação gradual da jovem foi acompanhada como uma novela pela população. No dia 24 de janeiro, o primeiro sinal de luz: ela reagiu a estímulos físicos após uma semana de coma. Dois dias depois, a saída da UTI para a enfermaria foi celebrada como uma vitória coletiva.
A alta hospitalar nesta quinta-feira traz um alívio não apenas para os parentes, mas para o sistema de saúde regional, que viu um caso de alta complexidade ser resolvido com sucesso técnico e humano. O impacto psicológico de ver alguém “voltar da morte” renova a confiança dos moradores no trabalho dos hospitais de base e centros de trauma da região.
Por que o caso chama atenção
O fator “ressurreição” é, sem dúvida, o que torna este caso extraordinário. No jornalismo brasileiro, raras são as histórias onde o IML é acionado e a vítima sobrevive para contar o relato. A imagem de uma mulher coberta pela manta fria da morte, que minutos depois é reanimada, desafia a lógica cotidiana.
Além do aspecto emocional, o caso chama atenção pela falha sistêmica. O Samu é uma instituição respeitada nacionalmente, e um erro dessa magnitude gera um debate necessário sobre a exaustão dos profissionais de saúde e a infraestrutura de apoio em rodovias. É um lembrete de que, na medicina de urgência, cada segundo e cada verificação dupla são cruciais.
A idade de Fernanda, apenas 29 anos, também contribui para a comoção. Uma vida jovem que quase foi interrompida por um diagnóstico precipitado gera uma empatia imediata, fazendo com que o público se coloque no lugar da família que, por instantes, acreditou ter perdido um ente querido para sempre.
Próximos passos e o que pode acontecer
Agora, fora do ambiente hospitalar, Fernanda inicia uma nova etapa: a reabilitação domiciliar. O processo pós-trauma de um atropelamento dessa escala exige fisioterapia motora e, possivelmente, fonoaudiologia para recuperar plenamente a capacidade de fala. O acompanhamento psicológico também será fundamental para lidar com o trauma do acidente e da experiência de quase morte.
No campo jurídico e administrativo, espera-se que o processo de apuração contra a equipe médica inicial avance. A família de Fernanda ainda não se manifestou publicamente sobre possíveis ações judiciais contra o estado ou o município, mantendo o foco total na saúde da jovem neste primeiro momento de liberdade.
O News do Brasil continuará monitorando as atualizações sobre o estado de saúde de Fernanda e os desdobramentos das investigações em Bauru. Casos como este deixam lições permanentes sobre a fragilidade da vida e a importância de nunca desistir do socorro, mesmo quando tudo parece perdido.
Com informações do site: G1