O mês de fevereiro mal começou e os moradores de Campinas, um dos principais polos econômicos e agrícolas do interior de São Paulo, já enfrentam as consequências de um volume hídrico atípico. Em apenas quatro dias, a cidade registrou uma concentração de chuvas que acendeu o sinal vermelho tanto para a Defesa Civil quanto para o setor produtivo.
A força das águas, que já vinha castigando a região desde o início do ano, agora reflete diretamente nas gôndolas dos supermercados e nas feiras livres. O impacto não é apenas local; dada a relevância da região para o abastecimento de centros urbanos vizinhos e da própria capital, o cenário preocupa especialistas em economia doméstica e agronegócio.
O que se sabe até agora
Dados oficiais do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) revelam a gravidade da situação climática. Entre os dias 2 e 5 de fevereiro de 2026, Campinas acumulou 62 milímetros de precipitação. Para se ter uma ideia da magnitude desse número, ele corresponde a 35% de toda a chuva esperada para os 28 dias do mês.
Esse fenômeno não é um evento isolado, mas sim o agravamento de um padrão que começou em janeiro. No mês passado, a Estação do Taquaral contabilizou 339 milímetros de chuva, superando em quase 80 milímetros a média histórica para o período, que costuma girar em torno de 261 milímetros. Esse solo já saturado pela água de janeiro não conseguiu absorver o novo volume de fevereiro, resultando em alagamentos nas áreas rurais.
Impacto direto no cinturão verde
O excesso de umidade transformou as lavouras em um cenário de prejuízo para os produtores rurais de Campinas e arredores. As hortaliças, conhecidas pela sua fragilidade e proximidade com o solo, são as primeiras vítimas do clima severo. Segundo relatos de quem vive da terra, as perdas em algumas propriedades já alcançam a marca de 40% de tudo o que foi plantado.
A cultura da alface, um item básico na dieta dos brasileiros, é a mais afetada. O excesso de água não apenas mata a planta precocemente, mas também retira o seu valor comercial. O produtor Sérgio Donofrio, figura conhecida na região, destaca que a qualidade visual e a durabilidade do produto despencaram. Se no inverno uma alface resiste até uma semana refrigerada, a produção atual apodrece em menos de três dias.
A ciência por trás da perda: A “podridão” das raízes
O problema enfrentado pelos agricultores tem uma explicação técnica clara. De acordo com a agrometeorologista Ludmila Camparoto, o contato constante das folhas e raízes com o solo excessivamente úmido gera um processo acelerado de decomposição. A mistura de barro e água estagnada impede que a planta “respire”, favorecendo a proliferação de fungos e bactérias.
Essa condição de “podridão” é o pesadelo de quem trabalha com folhosas. Como as hortaliças crescem rentes ao chão, elas ficam mergulhadas em um ambiente de alta umidade, o que compromete a estrutura celular do vegetal. O resultado é um produto que chega às prateleiras com folhas manchadas, murchas e com vida útil curtíssima.
Reação do mercado e inflação nos alimentos
Para o consumidor final, o reflexo dessa crise climática no campo aparece no bolso. Com a quebra da safra local, os produtores precisam buscar mercadoria em outros centros de distribuição, como o Ceagesp em São Paulo, para honrar seus contratos de entrega. Essa triangulação, somada à escassez generalizada, faz os preços dispararem.
Em apenas um mês, o custo de uma caixa de alface saltou de R$ 20 para R$ 50, um aumento superior a 150%. Esse reajuste em cascata atinge restaurantes, que precisam repassar o custo para o prato feito, e as famílias, que veem o poder de compra diminuir. A situação de Campinas serve como um termômetro para o estado de São Paulo, evidenciando como a instabilidade climática afeta a segurança alimentar.
Por que o caso chama atenção nacional
O que acontece em Campinas é um reflexo dos desafios impostos pelas mudanças nos padrões de chuva no Sudeste brasileiro. O volume concentrado em poucos dias impede o manejo adequado do solo e sobrecarrega os sistemas de drenagem rural. Além disso, a região é um dos pilares do abastecimento de folhosas para a Grande São Paulo, o maior mercado consumidor do país.
A recorrência de verões com chuvas acima da média histórica obriga o setor a repensar técnicas de cultivo, como o uso de estufas mais resistentes ou sistemas de drenagem mais eficientes. No entanto, para o pequeno produtor, o investimento em tecnologia muitas vezes é inviável após perdas consecutivas de safra.
Previsão e próximos passos para o setor
Infelizmente, o cenário a curto prazo não indica um alívio imediato. Meteorologistas apontam que a instabilidade deve permanecer até, pelo menos, o início de março de 2026. A virada do mês é vista com cautela extrema, pois novos picos de precipitação são esperados, o que pode aniquilar o que restou das plantações atuais.
A recomendação para os agricultores é o planejamento rigoroso da colheita, tentando aproveitar janelas de tempo seco para retirar o produto do campo antes de novas tempestades. Para o consumidor, a orientação é a substituição temporária de itens mais caros por outras opções de hortaliças ou legumes que tenham maior resistência à umidade, ajudando a equilibrar o orçamento doméstico.
Perspectiva para os meses seguintes
Com a continuidade das chuvas, o mercado espera que os preços das verduras permaneçam instáveis por pelo menos mais 45 dias. Somente após o período mais crítico de março é que a produção deve começar a se normalizar, desde que o outono traga o clima mais ameno e seco característico da estação no estado de São Paulo. Até lá, a vigilância no campo e a paciência no supermercado serão as palavras de ordem.
A prefeitura de Campinas e órgãos de assistência técnica rural seguem monitorando as áreas mais atingidas, mas até o momento não houve anúncio de subsídios ou auxílios específicos para os produtores que perderam quase metade de sua renda neste início de ano. O News do Brasil continuará acompanhando os desdobramentos dessa crise climática e seus impactos na economia paulista.
Com informações do site: G1